Os medidores de potência na corrida chegaram e, muito provavelmente, para ficar. A evolução da tecnologia começa a ser, na minha opinião, suficiente para ajudar todos aqueles que correm. Apesar da métrica ‘potência na corrida’ ser interpretada de forma diferente – quando comparamos aos medidores de potência no ciclismo – a mesma já nos permite chegar a determinadas conclusões e fornece marcadores de stress associados ao treino da corrida.

A bem da verdade os medidores de potência na corrida são medidores de trabalho exercido. Ou seja o que está a ser medido é a energia produzida pelo corpo ao movimentar-se para a frente em watts. Aplicando esta energia ao chão o corpo move-se. Ao contrário do ciclismo, a potência lida por cada individuo é altamente afectada pela sua biomecânica e eficiência na passada de corrida. Qualquer melhoramento técnico ou biomecânico faz com que um atleta possa correr a uma velocidade mais rápida produzindo o mesmo valor de potência. Assim é muito frequente encontrarmos situações em que dois atletas correm exactamente à mesma velocidade, com mesmo peso corporal, mas com valores de potência completamente diferentes. Ou produzir o mesmo valor de potência e correr a velocidades diferentes.

Confuso? Vamos dar então um exemplo: um atleta quando corre (para a frente) tem que aplicar uma força no chão que o impulsiona para o ar. Este ‘voo’ é necessário para a corrida. Se este primeiro atleta estiver a impulsionar o corpo demasiado para cima e não para a frente, a energia que está a produzir pode não estar a ser usada de forma eficiente. A energia, ou trabalho produzido, em watts, pode até ser o mesmo que um segundo atleta mais eficiente no impulso mas como está a correr mais para cima do que para a frente, o segundo atleta irá mover-se mais depressa. Ora neste caso, um melhoramento da técnica de corrida pode ajudar o primeiro atleta a correr mais rápido exercendo o mesmo trabalho e com o mesmo gasto energético. E o movimento, para além de frente e cima, pode também ser lateral, sendo que uma melhoria técnica na forma como corre pode vir em maior benefício do que mais séries ou mais volume.

No que toca ao peso do atleta, esse apenas tem influência no valor absoluto da potência de corrida. Assumindo que dois atletas têm exactamente a mesma eficiência de passada e assumindo que estão a mover-se à mesma velocidade, o atleta com maior peso, irá ter valores de potència de corrida mais elevados, à semelhança do que acontece no ciclismo.

 

Potência de corrida versus Ritmo de corrida

A tecnologia existente para medir potência a correr pode já ser uma métrica mais eficaz para calcular stress aplicado em cada sessão de treino do que ritmo de corrida. Por exemplo, vamos assumir que o atleta corre em plano inclinado, onde tem de lutar contra a gravidade. O ritmo de corrida em plano e rampa será diferente e é difícil medir o esforço apenas com esta métrica. Ora com a métrica potência o atleta consegue manter o esforço e intensidade tanto no plano como em rampa. Como a potência mede a energia produzida pelo corpo, basta que mantenha o mesmo valor em ambos os casos para não se exceder no esforço.  Daqui se conclui que ritmo de corrida não é uma boa métrica para gerir esforço principalmente em percursos ondulados.

Mas não só a correr em rampa isto se aplica, o mesmo acontece em momentos de descida. Como a descer a gravidade ajuda, o ritmo aumenta, mas o atleta consegue manter a mesma intensidade de esforço se se guiar pela potência.

 

Potência de corrida versus Batimentos cardíacos

Entre batimentos cardíacos e potência, qual será a melhor métrica? Este é o campo onde, enquanto atleta e treinador, ainda tenho mais dificuldade em dar uma resposta.

Ora, no ciclismo não tenho dúvidas porque a medição de potência acontece onde a energia que estamos a produzir se transfere para a bicicleta, normalmente no crank ou no pedal. Como não há um impulso como na corrid0a a biomecânica do ciclista não entra tanto na equação. De uma forma ou de outra, estamos a produzir energia e a medição é aquela que é transferida para a bicicleta. Na corrida, os medidores de potência não medem a potência onde esta se transfere para o chão (que seria na sola/sapato) mas sim através de acelerómetros incorporados no gadget que está a ler a potência e por isso deixa-me algo mais reticente em usar a potência para guiar os nossos treinos de corrida, simplesmente porque é falível.

Combinar a potência de corrida e o ritmo cardíaco começa a ser, contudo, cada vez mais uma ferramenta útil para avaliação de treinos e gestão de esforço. Principalmente em percursos ondulados, situações de elevada temperatura ou em esforços de longa duração onde a capacidade de marcar o ritmo acaba por ser fundamental. Nestas situações podem existir pequenas variações de ritmo cardíaco porque com o calor e falta de aclimatização temos variações de ritmo cardíaco, desidratação e digestão também afectam o ritmo cardíaco e porque o mesmo não responde instantaneamente às variações de inclinação do terreno. Com um medidor de potência podem de forma muito eficaz, monitorizar e manter um esforço constante, mantendo o mesmo quer em subida quer em descidas. O aspecto que me deixa reticente em usar apenas o medidor de potência como métrica é o facto de este ser fácil de ‘enganar’ , consciente ou inconscientemente, com uma alteração biomecânica da passada.

Concluiu-se então que a medição da ‘potência de corrida’ pode ser muito útil se emparelhado com a monitorização do ritmo cardíaco. Por si só, os actuais medidores de potência podem servir para gestão de esforço mas são falíveis pela biomecânica do corredor.

Mas porque se contentarem com pequenas fatias da equação quando podem ter o bolo completo? O ideal será então monitorizar tanto o ritmo cardíaco como a potência de corrida. Se já monitorizam o vosso ritmo cardíaco, distância e velocidade de cada corrida, a potência de corrida pode ser a fatia que faltava para uma análise completa de qualquer treino ou prova.

Aqui há uns anos o conceito de potência na corrida não estava previsto pelas principais marcas e por isso muitos dos gadgets e dispositivos mais antigos, nem se quer tinham a capacidade de mostrar potência associada ao perfil de corrida. Não existem ainda muitos medidores de potência de corrida no mercado, sendo que o Stryd é um dos pioneiros e uma das primeiras marcas a implementar-se no mercado. Para além de compatível com a maior parte dos novos dispositivos, é também compatível com plataformas virtuais como o Zwift. Também a Polar e a Garmin lançaram há relativamente pouco tempo relógios capazes de medir a potência através de acelerómetros incorporados no relógio.

Da minha experiência pessoal, testei a versão ‘heart rate strap’ do Stryd em 2017 quando o produto estava em lançamento e achei-o muito falível, sendo que os valores que o gadget lia variavam sem variações de terreno e (tentando) manter um ritmo e técnica de corrida constante. Acredito que a tecnologia tenha evoluido bastante e que a versão footpod do Stryd seja bastante mais fiável. Contudo, pessoalmente, sou preguiçoso para usar (mais um) gadget nas minhas corridas e actualmente uso apenas o relógio com medidor de potência incorporado que se tem revelado bastante preciso.

 

Sobre o autor:
Pedro Gomes

Pedro Gomes

Atleta profissional de Triatlo

Atleta profissional de Triatlo focado na distância IRONMAN™ e a competir no circuito mundial da distância promovido pela World Triathlon Corporation. Treinador pessoal de triatlo, formado pela QT2 Systems e Ironman U™,

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