1. Não se corre o caminho todo

Um dos segredos mais negros e profundos – ou aquele que os teus amigos que fazem Trail* quase nunca referem – é que no Trail Running não se corre o caminho todo. Para quem vem das corridas de estrada isto pode até parecer um pouco estranho e nas primeiras aventuras que fizerem as primeiras paragens vão ser esquisitas para o vosso sistema. Como quando estão a andar sem ter de carregar os milhares de sacos com equipamento para as provas de triatlo e não sabem o que fazer às mãos. Eu era daqueles que nem para atravessar estradas parava nos meus treinos, tentado sempre continuar a correr ao longo do passeio até haver uma pausa no tráfego automóvel para passar. Agora não só páro como inclusive deixo o tempo no relógio a contar porque o ritmo no final do treino deixou de ser importante.

Nas provas de Trail de dificuldade média-alta algumas subidas são tão inclinadas que andar, por vezes, é mais rápido do que tentar correr. O andar também oferece um pequeno alívio, suficiente por vezes para baixar o ritmo cardíaco. A bem da verdade o “andar” em prova é mais uma espécie de caminhada em potência vulgo powerhiking que não deixa de ser desgastante.

 

2. Sapatos para Trail fazem uma grande diferença

Esta era fácil de adivinhar de antemão mas vulgarmente negligenciada nas primeiras corridas em trilhos e/ou nas primeiras provas de trail. Existe todo um mercado de sapatos de trail running porque faz de facto uma grande diferença. O nível de tracção que um sapato específico de trail running oferece a descer – mas também a subir – é muito superior a um sapato de corrida de estrada. As especificidades dos sapatos de trail aplica-se também à resistência da sola, laterais do sapato, capacidade de escoamento de água e reforço das costuras. Não levam o vosso Renault Clio para uma horta certo? Claro que ficam bastante melhor servidos com um tractor!

 

3. É mais provável que as coisas dêem para o torto

Ninguém participa em provas de trail para correr em estradões de terra batida e as organizações, com frequência, escolhem subidas difíceis para incluir no percurso e zonas de descida técnica de forma a por à prova os participantes. Descer montes e vales por trilhos tem uma forte componente técnica que requer não só destreza como prática e confiança. Será comparável ao BTT onde temos que ganhar confiança no material (neste caso os sapatos), coragem e jeito. Assim, as quedas, joelhos e cotovelos esfolados ou tornozelos torcidos acabam por fazer parte desta vertente de corrida, principalmente para aqueles que mais arriscam em zonas de descida técnicas. Porque o trail running acaba por ser feito principalmente em Serra é comum atravessar rios ou ribeiras ou zonas de lama onde inevitavelmente vamos ficar todos sujos. Preparem uma muda de roupa e um saco ou toalha para o final dos vossos treinos e provas de trail, garanto que vai ser muito útil!

 

4. As organizações podem oferecer mais goodies

Regra geral o policiamento e corte de estradas nas provas de estrada são uma fatia gigante do orçamento para uma organização de prova. As provas de trail conseguem reduzir bastante essa fatia, permitindo que haja mais capacidade financeira para tudo o resto, desde goodies aos participantes, até à qualidade dos abastecimentos tanto durante como no final da prova. Animação durante a prova também é comum. Arrisco-me até a dizer que a maior parte das provas de trail em Portugal oferece um almoço convívio e um prémio de finisher melhor que a grande maioria das provas de estrada.

 

5. Há orientação nas provas de Trail

Não será como as provas de verdadeira orientação onde os atletas, apenas munidos de um mapa e instrumentos de navegação, tentam encontrar os vários pontos de controlo. Em provas de trail é fundamental contudo estar atento às marcações de trilho porque em muitos casos há vários caminhos na mesma direcção. Regra geral, a navegação é feita através de fitas presas em árvores ou postes e os atletas devem seguir de fita em fita. Uma prova de trail bem marcada tem sempre duas fitas visíveis mas sendo que a maior parte dos eventos realizam-se em trilhos abertos ao público tenham em atenção que às vezes as fitas desaparecem ou foram levadas pelo vento. Por norma e se correrem em prova e num trilho por mais de 50-100 metros sem ver uma fita, estão no caminho errado!

 

6. O tempo que se corre é mais importante que a distância

Correr a mesma distância pode levar o dobro (ou mais) do tempo em trilhos do que na estrada. Tanto em treino como em prova, o importante acaba por ser o tempo que se vai correr e não a distância até porque com altimetria a distância ainda passa mais devagar. Portanto, se têm um plano de abastecimento em treino e prova associado à distância – por um exemplo tomar um gel a cada 5km – alterem o mesmo para um que esteja associado ao tempo de prova. Da mesma maneira, se vão treinar pensem antes quanto tempo querem correr para planear a vossa jornada.

Para provas de Trail e apesar de constantemente os percursos serem alterados, uma boa maneira de calcular quanto tempo determinada distância vai levar-vos será olhar para os resultados do ano anterior para que nenhum plano de almoço de família saia furado.

 

7. Existe uma obsessão por altimetria

Todos os atletas de trail têm uma obsessão por altimetria. Não interessa a distância ou quanto tempo correm, o importante é quase sempre o “D+”, ou seja, o desnível positivo do treino ou prova. As organizações normalmente anunciam a altimetria ou o D+ das provas de antemão até para se perceber quão difícil é a prova.

Caso seja novatos no mundo do Trail, fica aqui a nota: qualquer prova com mais de 400 de D+ por cada 10km já é desafiante. Portanto, se uma prova tem, por exemplo, 25Km e 2000D+, essa é uma prova para levar cerca de 3horas para os primeiros classificados e de bastante dificuldade. Provas com cerca de 1000D+ por cada 15km entram numa categoria especial chamada Sky Marathon ou Sky Race.. lá está, porque estão a aproximar-se do céu!

 

8. Não se ganham provas a subir

Claro que é importante subir bem e forte mas onde se consegue separar os homens dos meninos, os experientes dos novatos, é frequentemente a descer. Quantos dos vossos amigos que começam a fazer provas de Trail não chegam a casa depois da primeira prova com a sensação de que “a subir eram os mais fortes mas a descer não tinham hipótese”? Atletas de Trail mais experientes reduzem o esforço a subir de forma a controlar o pulso para fazerem a diferença nas zonas mais planas e conseguir descer a bom ritmo que, parecendo que não, também requer esforço e atenção. Raramente o atleta que ganha é aquele que chega em primeiro ao topo da primeira subida.

 

9. O Trail é um excelente treino para ciclistas

A corrida em trilhos ou provas de Trail é um excelente complemento de treino para ciclistas. A corrida em plano inclinado – bom, em alguns casos, plano MUITO inclinado – tem uma forte componente de força e a mesma acaba por ser aplicada de forma bastante semelhante ao movimento de pedalada em cima da bicicleta. Este tipo de corrida onde seguimos com um ângulo mais fechado dos flexores da coxa, recruta os glúteos e quadricípedes de forma muito semelhante à bicicleta sendo portante um excelente complemento para ciclistas.

 

10. Atletas de topo ainda fazem volume de estrada

Apesar da corrida de Trail ter a sua especificidade para a qual é importante ganhar confiança e destreza a descer pelo meio de raízes, rochas e buracos, os melhores atletas da modalidade ainda fazem grande parte do seu volume de corrida na estrada. O corpo é uma máquina de hábitos e a corrida de Trail acaba por ser excelente para o ganho de força mas o recrutamento nervoso necessário para correr rápido perde-se um pouco. Convém portanto não ‘desabituar’ o corpo a ritmos mais rápidos. Corram em trilhos para melhorar a vossa técnica mas não deixem de fazer um quota parte do volume de treino na estrada para melhores resultados.

 

11. Existe muito material e uma moda a seguir

Mochilas, equipamento de cores espampanantes, material de compressão para todas as partes do corpo, luvas, cintos, bastões, lenços, fitas, etc., é raro o atleta de Trail que faz uma prova de Singlet ou calcões de atletismo. Também os há mas são poucos. Existe toda uma panóplia de equipamento a comprar e algum obrigatório em provas do Trail, nomeadamente uma manta térmica, um apito, um reservatório de água de pelo menos 500ml e o telemóvel. Para os inexperientes sugiro assistirem a prova de Trail – ao vivo ou no youtube – e tentarem perceber o que é livremente “admissível” ou não. Como em tudo, existe um código secreto de vestuário a seguir mas ninguém vai olhar de lado se forem de facto com calções de atletismo e uma singlet de corrida. Podem é sentir-se nús!

 

12. Essencial levar telemóvel

O telemóvel acaba por ser a peça de equipamento imprescindível para qualquer aventura fora de estrada. Lembrem-se que provavelmente vão andar a correr por trilhos com pouca afluência pedestre e em caso de acidente a única maneira de chamar ajuda será através do telemóvel. Claro, na esperança de ter rede no meio da montanha ou mato.

As corridas de Trail são também ricas em cores vivas, vida selvagem e ambientes únicos que merecem ser registados em fotografia ou vídeo. Se não querem levar o telemóvel por segurança pensem antes em todas as fotos que vão perder caso o deixem em casa.

 

13. Os “estoiros” em prova são monumentais mas a recompensa também

Se nas provas de estrada quando um atleta “estoira”, acaba sempre por conseguir chegar à meta inteiro, em provas de Trail é frequente assistir a estoiros monumentais de atletas. Isto porque não só a duração das provas de Trail é bastante superior à média das provas de estrada como quando de facto se chega perto do fundo das nossas reservas, provavelmente ainda temos de subir mais algumas montanhas antes de conseguir atingir a linha de meta ou abastecimento. No meio do mato acaba por ser sobrevivencia. A nutrição é fundamental para a performance numa prova de Trail porque o gasto energético acaba por ser bastante superior devido à duração e distância da maioria das provas e nem sempre os atletas o fazem correctamente.

As provas de Trail são acima de tudo desafios pessoais e existem vários momentos baixos e momentos altos durante o decorrer das mesmas, muito à semelhança do que acontece nas provas de Ironman. Parece-me que na estrada e em distâncias mais curtas andamos sempre muito no limite máximo do corpo mas não existe um ‘muro’ como nas distâncias mais longas. No Trail, como na maratona e no Ironman, o muro está lá e é aquele momento em que esgotámos todas as nossas reservas de glicogénio e muitas vezes nem conseguimos dar mais um passo para a frente. Apesar da maioria dos atletas não andar perto do seu limite máximo. andam perto do limite das suas reservas e em provas de trail acaba por ser importante saber gerir o esforço, como abastecer e ganhar experiência. Mas quanto mais dificil a prova, melhor a recompensa na meta, independentemente da posição final.

 

(*) – para este artigo vamos considerar que as provas de Trail a que me refiro são de média e longa distância.

Sobre o autor:
Pedro Gomes

Pedro Gomes

Atleta profissional de Triatlo

Atleta profissional de Triatlo focado na distância IRONMAN™ e a competir no circuito mundial da distância promovido pela World Triathlon Corporation. Treinador pessoal de triatlo, formado pela QT2 Systems e Ironman U™,

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